"Quem cuida da saúde mental aqui: o RH ou a saúde ocupacional?" Essa pergunta aparece cada vez mais nas empresas. Ainda mais agora, com a NR-1 pedindo que os riscos psicossociais entrem no gerenciamento de riscos.
A resposta curta: os dois cuidam, mas de lugares diferentes. O psicólogo da saúde ocupacional olha para o trabalho como fonte de saúde ou de adoecimento. O psicólogo organizacional, no RH, cuida das pessoas na gestão: seleção, desenvolvimento, clima e carreira. Um não substitui o outro.
Saúde no trabalho não depende só da pessoa
Quando alguém adoece no trabalho, a primeira reação costuma ser procurar a causa na própria pessoa. "Ela é muito ansiosa." "Ele não aguenta pressão." Às vezes isso ajuda a entender uma parte da história. Quase nunca explica tudo.
Christophe Dejours, psiquiatra e psicanalista francês, criou a Psicodinâmica do Trabalho para olhar justamente o outro lado. Para ele, o sofrimento no trabalho também nasce da forma como o trabalho é organizado. Entram aí as metas, os ritmos, a divisão das tarefas, o controle e o reconhecimento. Entra também a distância entre o que está prescrito e o que o trabalhador precisa fazer para dar conta.
Pense numa central de atendimento. O tempo de cada ligação é cronometrado, o roteiro é fixo e a pausa tem hora marcada. Se várias pessoas da mesma equipe adoecem, faz sentido perguntar só o que há de errado com cada uma? Ou vale olhar também para a forma como aquele trabalho foi desenhado?
O filósofo Byung-Chul Han chamou o nosso tempo de "sociedade do cansaço". É uma ideia que ajuda a pensar como a cobrança por desempenho pode virar autocobrança. Quando isso acontece, o esgotamento parece um problema pessoal, mesmo quando tem raiz no modo de trabalhar.
Essa mudança de olhar é o ponto de partida da Psicologia do Trabalho. A saúde do trabalhador não é só assunto de cada um. É assunto da organização.
O que faz o psicólogo na saúde ocupacional
O psicólogo na saúde ocupacional atua junto ao SESMT, o Serviço Especializado em Segurança e em Medicina do Trabalho. Trabalha lado a lado com a medicina, a enfermagem, a engenharia de segurança, a fisioterapia e a ergonomia. O foco dele é a relação entre o trabalho e a saúde.
Na prática, algumas ações costumam fazer parte desse trabalho:
- identificar e avaliar os fatores de risco psicossociais do trabalho, junto com a equipe de segurança e saúde;
- ajudar a incluir esses riscos no gerenciamento de riscos da empresa e propor medidas de prevenção;
- analisar situações de trabalho que se repetem nos afastamentos e nas queixas;
- acolher o trabalhador em sofrimento ligado ao trabalho e orientar o encaminhamento para a rede de cuidado, quando necessário;
- acompanhar o retorno ao trabalho depois de um afastamento, junto com a medicina do trabalho;
- participar de ações de prevenção, como rodas de conversa, orientação a lideranças e campanhas;
- realizar a avaliação psicossocial para atividades de risco, quando a empresa precisa dela.
Repare que o centro da sua atuação não é a psicoterapia, apesar do profissional também atuar no acolhimento do sofrimento psicológico do trabalhador. Seu trabalho consiste em compreender o que no trabalho protege a saúde e o que adoece, e levar isso às decisões da empresa.
E o psicólogo organizacional do RH?
O psicólogo organizacional atua na gestão de pessoas. O foco dele é a pessoa no papel de profissional: como ela entra, se desenvolve, se relaciona e cresce na empresa.
Entre as ações mais comuns:
- recrutamento e seleção;
- integração de novos funcionários;
- treinamento e desenvolvimento de equipes e lideranças;
- pesquisa de clima e ações de engajamento;
- avaliação de desempenho e planos de carreira;
- mediação de conflitos entre pessoas e equipes.
São trabalhos importantes e que também afetam a saúde das pessoas. Uma liderança bem preparada, por exemplo, pode fazer muita diferença no dia a dia de uma equipe. Mas o olhar é outro. O RH pergunta como desenvolver as pessoas para o trabalho. A saúde ocupacional pergunta o que o trabalho está fazendo com a saúde das pessoas.
Por isso um não substitui o outro. Quando o RH assume sozinho a saúde mental, o risco é tratar como questão de perfil ou de engajamento o que é questão de organização do trabalho. Quando a saúde ocupacional trabalha sem o RH, perde quem conhece a cultura, as lideranças e a história das equipes. É como numa obra: o engenheiro e o arquiteto olham para a mesma casa, mas respondem por coisas diferentes.
Duas avaliações que costumam se confundir
Um dos pontos que mais gera confusão nas empresas são dois serviços com nomes parecidos. Eles têm objetivos bem diferentes.
Avaliação dos Fatores de Risco Psicossociais no Trabalho. Olha para o trabalho, não para a pessoa. Busca identificar o que, na organização, pode causar sofrimento ou adoecimento: sobrecarga, metas fora da realidade, falta de autonomia, assédio, conflitos de papel, pouco apoio. O resultado serve para planejar ações de prevenção e entra no gerenciamento de riscos que a NR-1 pede.
Avaliação Psicossocial para atividades de risco. Olha para o trabalhador diante de uma atividade específica. Algumas normas, como as de trabalho em altura e em espaços confinados, pedem que a aptidão para essas tarefas leve em conta aspectos psicossociais. A avaliação ajuda a medicina do trabalho a decidir se a pessoa está em condições de fazer aquela atividade com segurança naquele momento.
Uma forma simples de lembrar: a primeira pergunta "este trabalho está adoecendo as pessoas?". A segunda pergunta "esta pessoa está em condições de fazer esta tarefa com segurança agora?". Trocar uma pela outra deixa a empresa sem a resposta de que precisa.
Por que vale cuidar
Cuidar da saúde de quem trabalha é, antes de tudo, uma questão de respeito e de obrigação legal. Também costuma aparecer no dia a dia da empresa. No trabalho com equipes, a gente vê muito isso: quando os riscos do trabalho são discutidos, as pessoas falam mais cedo do que está pesando. Falar cedo dá mais tempo para agir antes do afastamento.
Nenhum serviço, sozinho, garante esse resultado. Ele depende de a empresa ouvir o que a avaliação mostra e mudar o que precisa ser mudado. O psicólogo ajuda a enxergar e a propor. A decisão de transformar o trabalho é da organização.
Quando acionar cada um
- Saúde ocupacional: afastamentos que se repetem num mesmo setor, queixas ligadas a metas ou ritmo, suspeita de assédio, retorno de afastamento, mapeamento de riscos psicossociais, atividades de risco.
- RH: seleção, integração, desenvolvimento de lideranças, clima, conflitos entre pessoas, carreira.
- Os dois juntos: quando um problema de clima ou de liderança começa a aparecer como adoecimento. Na maioria das vezes, é aí que a conversa entre as duas áreas faz mais falta.
Se um trabalhador está em sofrimento intenso, o caminho é o acolhimento e o encaminhamento para atendimento: um psicólogo, a UBS ou o CAPS da região. Em crise, o CVV atende pelo 188 e o SAMU pelo 192.
Em resumo
O psicólogo da saúde ocupacional cuida da relação entre o trabalho e a saúde. O psicólogo organizacional cuida das pessoas na gestão. As duas funções se completam, e nenhuma dá conta sozinha. Se a sua empresa está se perguntando por onde começar, vale conversar com um psicólogo do trabalho.
Perguntas frequentes
O psicólogo faz parte do SESMT?
Ele pode atuar junto ao SESMT, ao lado da medicina, da enfermagem e da segurança do trabalho. A composição da equipe depende da empresa.
O psicólogo do RH pode fazer a avaliação de riscos psicossociais?
A avaliação dos riscos psicossociais pede um olhar voltado para a relação entre trabalho e saúde. Por isso, o ideal é que seja feita com a equipe de saúde e segurança do trabalho.
Avaliação psicossocial é o mesmo que avaliação psicológica?
Não exatamente. A avaliação psicossocial para atividades de risco pode usar recursos da avaliação psicológica, mas tem um objetivo próprio: apoiar a decisão sobre a aptidão para uma tarefa específica. Ela não é um diagnóstico.
A NR-1 obriga a empresa a ter psicólogo?
A NR-1 pede que os riscos psicossociais entrem no gerenciamento de riscos. Contar com um psicólogo do trabalho ajuda a fazer isso com cuidado.
De onde vem este texto. Da experiência de quem atende no consultório; não traz resultados de pesquisa.