Saúde Mental

“Bem-vindo à Holanda”

23/03/2026 16:34 5 min

 

O atendimento psicológico infantil muitas vezes começa com a psicoeducação dos pais.

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Quando uma criança vem ao consultório, o primeiro contato do psicólogo é com os pais e/ou responsáveis pelo menor. O nosso trabalho inicial, é entender seu histórico, sua dinâmica, manias e costumes, e quais as queixas que cercam o pequeno ser sorridente que, ao deslumbrar a sala com brinquedos de tamanhos e cores variadas, vira para seus pais, troca olhares de permissão silenciosos, e então parte para se entreter com os brinquedos lá disponíveis.

Enquanto, de certa forma, grande parte das crianças que vem pela primeira vez ao consultório, não fazem a menor ideia do por que da “consulta médica” que lá as trouxe, geralmente os pais chegam fragilizados, cheio de medos e, até mesmo, estigmatizados, por terem um filho “desse jeito ou daquele”, diferente do sonhado, do esperado e, mais ainda, diferente do imposto pela sociedade.

A insegurança desses pais de primeira viagem é grande e a ajuda psicológica aparece como “luz no fim do túnel”.

Antes de prosseguirmos, gostaria de inserir o texto, de autoria de Emily Perl Knisley, escrito em 1987, que relata sobre essa viagem que é ter um filho.

“Bem-vindo à Holanda


Frequentemente sou solicitada a descrever a experiência de criar um filho com deficiência, para tentar ajudar as pessoas que nunca compartilharam dessa experiência única a entender, a imaginar como deve ser. É mais ou menos assim...

Quando você vai ter um bebê, é como planejar uma fabulosa viagem de férias - para a Itália. Você compra uma penca de guias de viagem e faz planos maravilhosos. O Coliseu. Davi, de Michelangelo. As gôndolas de Veneza. Você pode aprender algumas frases convenientes em italiano. É tudo muito empolgante.
Após meses de ansiosa expectativa, finalmente chega o dia. Você arruma suas malas e vai embora. Várias horas depois, o avião aterrissa. A comissária de bordo chega e diz: "Bem-vindos à Holanda".

"Holanda?!? Você diz, "Como assim, Holanda? Eu escolhi a Itália. Toda a minha vida eu tenho sonhado em ir para a Itália."

Mas houve uma mudança no plano de vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.

O mais importante é que eles não te levaram para um lugar horrível, repulsivo, imundo, cheio de pestilências, inanição e doenças. É apenas um lugar diferente.
Então você deve sair e comprar novos guias de viagem. E você deve aprender todo um novo idioma. E você vai conhecer todo um novo grupo de pessoas que você nunca teria conhecido.

É apenas um lugar diferente. Tem um ritmo mais lento do que a Itália, é menos vistoso que a Itália. Mas depois de você estar lá por um tempo e respirar fundo, você olha ao redor e começa a perceber que a Holanda tem moinhos de vento, a Holanda tem tulipas, a Holanda tem até Rembrandts.

Mas todo mundo que você conhece está ocupado indo e voltando da Itália, e todos se gabam de quão maravilhosos foram os momentos que eles tiveram lá. E toda sua vida você vai dizer "Sim, era para onde eu deveria ter ido. É o que eu tinha planejado."

E a dor que isso causa não irá embora nunca, jamais, porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

No entanto, se você passar sua vida de luto pelo fato de não ter chegado à Itália, você nunca estará livre para aproveitar as coisas muito especiais e absolutamente fascinantes da Holanda.

por Emily Perl Kingsley, 1987”

 

Após ler o texto apresentado, podemos dizer que, independente de nascer com deficiência/transtorno psiquiátrico ou neurológico/problemas de saúde, ter um filho é sempre lidar com o inesperado, com o que tira da zona de conforto. E eu sempre digo aos pais: “está tudo bem, é assim mesmo com todo mundo”.

Sentimentos como culpa, raiva, frustração, tristeza, medo, aparecem pós nascimento do bebê, não é só alegrias, afinal, somos seres humanos.

E os pais não precisam ter controle de tudo e acertar sempre, ninguém nasce pai ou mãe, é um aprendizado constante.

O grande lance é se dedicar a essa empreitada, dar amor, respeitar, se respeitar, não esquecer das próprias necessidades e sonhos e tentar encaixar tudo ao longo do caminho. Geralmente tudo acaba se encaixando ao longo do tempo, independente do que você faça.

Não fique preso a ideia de que “é tudo culpa sua”, afinal, você não recebeu nenhum manual de instruções ou treinamento para isso, porque ninguém recebeu, você está aprendendo aos poucos.

Todo profissional da Psicologia, que for atender crianças, deve acolher aos pais, primeiramente. O trabalho tem que ser em conjunto, um colaborando com o outro, sem julgamentos.

Somente assim a criança irá se desenvolver da melhor forma possível: experienciando a vida, sendo amada e estimulada, em um ambiente acolhedor, que também se sente amado e motivado a fazer o melhor trabalho possível.

 

Neuropsicóloga Priscila Rodrigues

CRP 06/98230

- Psicóloga na abordagem Terapia Cognitivo Comportamental
- Especialista em Neuropsicologia e Psicologia Hospitalar em Reabilitação